No filme e no livro “O Auto da Compadecida”, do Ariano Suassuna, tem uma peculiaridade marcante: Jesus é negro. Essa possibilidade chocou a igreja na época, igreja aliás, que era movida a dinheiro, tanto que quando ameaçados de morte pelo cangaceiro, o padre e o bispo se recusaram a dar todo dinheiro da igreja para o bandido, com intenção de comprar um bom lugar para onde estavam indo.
Jesus negro aparece no final do filme como um mendigo, depois da absolvição e segunda chance do trapaceiro/herói da trama, João Grilo, e assim travam o seguinte dialogo:
A cena começa com a imagem fechada na mão estendida de Jesus, perfurada pelo cravo.
(Jesus) – Uma esmola pelo amor de Deus, que é pra eu tirar a barriga da miséria.
(João Grilo) – Olha, o senhor vai me desculpando mas de barriga na miséria aqui já tem três.
(Rosinha) – Tome meu senhor (estendo o pão para Jesus) e vá com Deus.
(Jesus) – E vocês vão com ele. (disse partindo)
(João Grilo) – Danou-se dona Rosinha, foi-se a comida quase toda.
(Rosinha) – Jesus se disfarça as vezes de mendigo pra testar a bondade dos homens.
(João Grilo) – Pode até ser, mas aquele ali não era Jesus não.
(Chicó) – Ué, como é que você sabe?
(João Grilo) – Pretinho daquele jeito? Não é mesmo.
Muitas vezes temos atitudes discriminatórias até sem maldade, talvez um pouco por força de criação, ou usamos o que acabei de escrever para esconder que somos mesmo, um povo preconceituoso e que aparência faz sim, diferença em nossos relacionamentos.
Há um morador de rua que foi algumas vezes em nossa igreja. Eu já o conhecia por conta de um trabalho comunitário do qual faço parte fora da igreja. Percebi da primeira vez que entrou ali, um certo desconforto de alguns irmãos, seja pelo mal cheiro dele ou por sua aparente embriagues. O fato é que logo fui chamado pra louvar e brinquei ali com ele, quebrando um pouco daquele desconforto.
Não é incrível? Estou falando aqui de uma igreja, ou seja, um lugar de comunhão, onde uns confortam os outros. Não é bem assim, infelizmente, muitos frequentam a igreja porque querem ser abençoados, porem não têm disposição de abençoar. Outros frequentam a igreja por obrigação e alguns frequentam para serem comentados. Poucos vão ali para adorar. “Minha casa será chamada Casa de Oração” nos ensinou Jesus.
Somos uma legião de Mefibosetes numa terra estranha e distante, como peixes fora da agua. Não somos daqui, não pertencemos a este lugar, mas estamos aqui. Presos a cartilagem, às limitações dos movimentos. Custamos a respirar. Não é a nossa praia. Definitivamente. Quantas vezes você não se sentiu desta maneira? Mostre-me alguém que seja plenamente feliz nesta terra e eu lhe mostrarei um grande mentiroso. Não somos daqui. Estamos aqui de passagem. Somos forasteiros num planeta que vamos aprendendo a conhecer dia após dia. Somos hospedes num corpo que nos possibilita habitar neste planeta estranho. Somos inquilinos do tempo e a ele submissos. O tempo é produto perecível e estamos na prateleira acondicionados na embalagem que o contém. Estamos presos ao tempo que o tempo tem para nós. Aprisionados e morando de aluguel num lugar estranho. Mas você já conhece, já ouviu falar a respeito do Rei. Você procurou se esconder o tempo todo Dele. Por medo ou por insegurança, mas Ele se lembrou de você. Agora Ele já sabe que você é um sobrevivente da casa Dele e manda busca-lo. Você pensa “chegou minha hora, meu tempo acabou”. Prepara-se para o pior e o que acontece? Ele lhe convida pra sentar em Sua mesa, dormir em Sua casa, quer que fique na presença Dele. Para sempre. Você sente que seu ar mudou, que já pode respirar sem o auxilio desconfortável do tempo lá fora, se pró ou contra. Você se sente seguro para ser feliz. Você se sente protegido pelo Rei. E o que o Rei quer que você faça? Nada. Apenas que não saia de Sua presença, que não volte para Lo Debar, ou para o Brooklin ou para a periferia, ou o bar mais próximo. Ele lhe tirou do inquilinato para dividir consigo o Seu palácio. Mandou busca-lo, tem pressa de restituir aquilo tudo que você, por despreparo, desprezo, ganancia ou qualquer outro motivo, perdeu. Aguarda só sua resposta. Conhece seus defeitos, sabe o quanto se arrasta por este planeta. Já ouviu falar de sua dificuldade de caminhar sozinho. Reparou no seu aleijão e quer lhe ver de pé como nunca antes você conseguiu estar. “Seja bem vindo ao seu lar”, é o que Ele mandou pintar na porta de Sua casa, só para você. A única coisa, no entanto, que Ele pede é que o aceite como seu Rei e único e verdadeiro amigo.
Quanto ao morador de rua, morava na mesma rua da igreja. Ele poderia perfeitamente responder a quem perguntasse seu endereço: “Mora na rua Dulce, primeiro quarteirão, bem no meio, do lado esquerdo”. Era seu endereço. A igreja é na esquina do segundo quarteirão, também do lado esquerdo. Com certeza muitos irmãos já passaram por ele ali na rua. Muitos também devem ter atravessado a rua ao vê-lo ou tropeçado nele, afinal, moradores de rua são invisíveis, não é?
O ultimo culto em que apareceu por lá, chegou mais tarde que de costume, mais embriagado que o normal e mais triste que o habitual, até porque, normalmente era uma pessoa alegre. Ele tinha duas bíblias entre os seus pertences, que carregava por onde fosse. Ele lia e fazia anotações em um caderno. Colocava ali o seu entendimento e muitas vezes me mostrava. Lembro-me de uma ocasião em que me mostrou o que havia entendido do Salmo 23 e era quase um poema, escrito pelas suas mãos sujas mas com a tinta da alma. Belissimo.
Naquela noite em particular ele estava triste. Haviam roubado suas coisas e entre as coisas estavam suas bíblias. Ele estava me contando isso quando reparei numa senhora, que estava sentada bem a nossa frente, tapando o nariz e resmungando qualquer coisa para uma jovem que estava ao lado dela. Ele me contou que não morava mais naquela rua por conta do roubo e que estava triste pela perda das bíblias mas ao mesmo tempo me mostrou um embrulho de um pequeno livro que ganhara aquela noite. Era um exemplar do “Evangelho segundo o espiritismo”. Novamente a senhora olhou para traz e indignou-se com aquilo. Ele contou que não era como a bíblia dele, que estudava, mas que também falava de Jesus e isso reconfortava, de certa forma. Desde aquela noite, guardo em meu carro uma bíblia pronta pra entregar à ele. Uma NVI para melhor compreensão dos textos, mas não o vi mais.
Lembro de Jesus, citando Isaias, ter dito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor” (Lucas 3: 18-19-20).
Aquela senhora continua frequentando os cultos, dominicais, porque nos cultos da semana não me lembro de tê-la visto. Fico me perguntando: O que será que significa para ela (e para muitos ali) amar o próximo como a si mesmo? Ou será que neste caso ela ama ao próximo desde que ele não seja ou não esteja tão próximo? A proposito, o nome deste morador de rua é Jesus. Não é curioso? Justamente um Jesus, na casa onde adoramos Jesus, não ser bem vindo... No mínimo triste.
Acho que nós também perdemos as nossas bíblias e um Jesus, que pode ser pretinho transfigurado em mendigo, vai nos estender a mão não para pedir uma esmola “pra tirar a barriga da miséria”, mas para nos pedir a conta do que fizemos em nome Dele por Ele e para Ele, aqui. Em qual time você está? Qual a miséria que você pode dividir com Jesus neste momento?
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